Prece, de Fernando Pessoa

Prece, Fernando Pessoa

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu. Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo)  – eis o teu corpo.

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai. […]

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

 

Retirado do livro O Eu Profundo – Obras em Prosa, 1976.

A grandeza do mar, de Paulo Roberto Gaefke

A grandeza do mar, de Paulo Roberto Gaefke

Você sabe por que o mar é tão grande?
Tão imenso? Tão poderoso?
É porque teve a humildade de colocar-se alguns centímetros
abaixo de todos os rios.
Sabendo receber, tornou-se grande.
Se quisesse ser o primeiro, centímetros acima de todos os rios,
não seria mar, mas sim uma ilha.
Toda sua água iria para os outros e estaria isolado.
A perda faz parte.
A queda faz parte.
A morte faz parte.
É impossível vivermos satisfatoriamente.
Precisamos aprender a perder, a cair, a errar e a morrer.
Impossível ganhar sem saber perder.
Impossível andar sem saber cair.
Impossível acertar sem saber errar.
Impossível viver sem saber morrer.
Se aprenderes a perder, a cair, a errar, ninguém mais o controlará.
Porque o máximo que poderá acontecer a você é cair, errar e perder.
E isto você já sabe.

Bem aventurado aquele que já consegue receber com a mesma naturalidade
o ganho e a perda, o acerto e o erro, o triunfo e a queda, a vida e a morte.

Retirado do livro “Quando é preciso Viver”

 

Poema aos amigos, de Jorge Luís Borges

Não posso dar-te soluções para todos os problemas da vida,

Nem tenho resposta para as tuas dúvidas ou temores, mas posso ouvir-te eE compartilhar contigo.
Não posso mudar O teu passado nem o teu futuro. Mas quando necessitares de mim Estarei junto a ti.
Não posso evitar que tropeces, Somente posso oferecer-te a minha mão Para que te sustentes e não caias.
As tuas alegrias Os teus triunfos e os teus êxitos Não são os meus, Mas desfruto sinceramente Quando te vejo feliz.
Não julgo as decisões Que tomas na vida, Limito-me a apoiar-te, A estimular-te E a ajudar-te sem que me peças.
Não posso traçar-te limites Dentro dos quais deves actuar, Mas sim, oferecer-te o espaço Necessário para cresceres.
Não posso evitar o teu sofrimento Quando alguma mágoa Te parte o coração, Mas posso chorar contigo E recolher os pedaços Para armá-los novamente.
Não posso decidir quem foste Nem quem deverás ser, Somente posso Amar-te como és E ser teu amigo.
Todos os dias, penso Nos meus amigos e amigas, Não estás acima, Nem abaixo nem no meio, Não encabeças Nem concluís a lista. Não és o número um Nem o número final.
E tão pouco tenho A pretensão de ser O primeiro O segundo Ou o terceiro Da tua lista. Basta que me queiras como amigo
Dormir feliz. Emanar vibrações de amor. Saber que estamos aqui de passagem. Melhorar as relações. Aproveitar as oportunidades. Escutar o coração. Acreditar na vida.

Entre o Sono e Sonho, de Fernando Pessoa

Entre o sono e sonho,

Entre mim e o que em mim

É o quem eu me suponho

Corre um rio sem fim.

 

Passou por outras margens,

Diversas mais além,

Naquelas várias viagens

Que todo o rio tem.

 

Chegou onde hoje habito

A casa que hoje sou.

Passa, se eu me medito;

Se desperto, passou.

 

E quem me sinto e morre

No que me liga a mim

Dorme onde o rio corre —

Esse rio sem fim.

Novo Milênio, Novo Olhar, de Roberto Crema

Mudar o mundo,
É mudar o olhar.
Do olhar que estreita e subtrai,
para o olhar que amplia e engrandece.
Do olhar que julga e condena,
para o olhar que compreende e perdoa.
Do olhar que teme e se esquiva,
para o olhar que confia e atreve.
Do olhar que separa e exclui,
para o olhar que acolhe e religa.
Todos os olhares
num só olhar.
O olhar da inocência
e o olhar da vigilância.
O olhar da justiça
e o olhar da misericórdia.
Todos os olhares
num só Olhar.
Olhar de criança que brinca
na Primavera,
olhar de adulto que labora,
no verão,
olhar de maduro que oferta,
no Outuno,
olhar de prece e silêncio,
no Inverno.
O olhar de quem nasce,
O olhar de quem passa,
O olhar de quem parte.
Olhares da existência no Olhar da Essência.
Todos os olhares,
num só Olhar.
Dançar de roda na órbita do olhar,
dançar de guerreiro em volta da fogueira do olhar,
dançar de Ser no olhar do Amor.
Dançar e brincar de olhar.
Olhar o porvir,
do instante que nasce,
no coração palpitante da transmutação.
Viva o novo olhar!
Olhe a vida de novo!
Novo olhar, novo viver!
Mudar o mundo
É mudar o olhar.
É alto olhar,
Altar do olhar.
É ousar viver.
É viver no ousar.
É amar viver,
É viver para amar.
Só então partir,
Para o Grande Olhar.
Todos os olhares
num só Olhar.
Num mesmo Olhar.
Supremo Olhar
Olhar.

Sol diferente

“Neste dia eu lhe desejo um sol diferente.

Que apesar de todas as dificuldades,
apesar de algumas tristezas que insistem,
que mesmo com essa montanha erguida,
o sol possa ser seu presente mais doce.

Desejo ao seu coração o querer que ele quer.
Que nas palavras que ele sussurra dentro do seu peito,
sejam ouvidas aquelas que têm sabor de liberdade.
Que você esteja atento para o sopro da sua vontade real,
e jamais desista dos seus passos em direção à verdade.

Desejo que sua percepção acorde mais plena
no calor de um sol novo e renovador.
Que ele lhe encoraje às atitudes
que estão querendo respirar.
Aquelas que sempre são substituídas,
Aquelas que não se arrojam
por ter os pesos de conceitos por demais antigos.

Desejo que você aceite seu tempo, seja ele qual for.
Que sinta serenidade na espera necessária
para que a semente plantada brote no tempo certo.

Desejo então que sua flor seja inteira,
e mesmo que inicialmente pequena e frágil,
ela lhe traga as luzes de uma estrada azul.

Que sua sabedoria esteja desperta aguardando com
tranqüilidade o desabrochar da sua flor.
Em paz, em cadência ritmada
com o aprendizado que vem chegando.
Em mais suaves permissões a você.
Em muito mais reconhecimento da sua coragem.

Desejo a você um sol diferente.

Espalhando seu sorriso pela densidade das nuvens,
simplificando o aspecto complicado de alguns momentos
e mostrando-lhe a fonte essencial para sua sede.

Desejo que a cada instante você desnude mais seu coração
e deixe que nele vibre em tom maior: o amor.

O amor na sua expressão mais simples.
Que não mede, não faz contas
e que tem o poder de lhe erguer
acima de todas as montanhas escuras”.

                                                                           (encontrado na Net, não sei a autoria)