Além da Terra, além do Céu, Drummond

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Cantos de cigarra: ensaiando primaveras!

Tive uma feliz surpresa de reencontrar Dorly Follmann, amigo dos meus tempos da Católica de Brasília, do curso de Pedagogia que, à época, funcionava no Colégio Marista de Taguatinga. Bons tempos! Tempos de muito trabalho, mas de muitas alegrias e de amizades fortes. Dorly, já o conheci poeta, sábio, generoso e de grande sensibilidade.
Fiquei também feliz de saber que, no final do ano passado, ele lançou seu primeiro livro de poesias: Que livro lindo! Vale a pena conhecer!
Dentre os belos poemas, escolhi este para compartilhar…

Rio – Nascente

Sou o que sou,
e não poderei não ser eu.

O rio que nasce lá no alto,
Desemboca no mar e diz:
“Aqui estou:”
Não o eu que lá nasceu,
Nem o eu que incorporou
Outros eus no seu,
Na sua andança fatal.

Como rio, sobrevivi,
Mas diferente, e,
Ainda assim,
O mesmo rio,
Em busca do meu destino.

Recomeçar tudo de novo:
Outra fonte,
Outro mar…
Rumo ao mesmo fim:
– EU.

Poema aos amigos, de Jorge Luís Borges

Não posso dar-te soluções para todos os problemas da vida,

Nem tenho resposta para as tuas dúvidas ou temores, mas posso ouvir-te eE compartilhar contigo.
Não posso mudar O teu passado nem o teu futuro. Mas quando necessitares de mim Estarei junto a ti.
Não posso evitar que tropeces, Somente posso oferecer-te a minha mão Para que te sustentes e não caias.
As tuas alegrias Os teus triunfos e os teus êxitos Não são os meus, Mas desfruto sinceramente Quando te vejo feliz.
Não julgo as decisões Que tomas na vida, Limito-me a apoiar-te, A estimular-te E a ajudar-te sem que me peças.
Não posso traçar-te limites Dentro dos quais deves actuar, Mas sim, oferecer-te o espaço Necessário para cresceres.
Não posso evitar o teu sofrimento Quando alguma mágoa Te parte o coração, Mas posso chorar contigo E recolher os pedaços Para armá-los novamente.
Não posso decidir quem foste Nem quem deverás ser, Somente posso Amar-te como és E ser teu amigo.
Todos os dias, penso Nos meus amigos e amigas, Não estás acima, Nem abaixo nem no meio, Não encabeças Nem concluís a lista. Não és o número um Nem o número final.
E tão pouco tenho A pretensão de ser O primeiro O segundo Ou o terceiro Da tua lista. Basta que me queiras como amigo
Dormir feliz. Emanar vibrações de amor. Saber que estamos aqui de passagem. Melhorar as relações. Aproveitar as oportunidades. Escutar o coração. Acreditar na vida.

Entre o Sono e Sonho, de Fernando Pessoa

Entre o sono e sonho,

Entre mim e o que em mim

É o quem eu me suponho

Corre um rio sem fim.

 

Passou por outras margens,

Diversas mais além,

Naquelas várias viagens

Que todo o rio tem.

 

Chegou onde hoje habito

A casa que hoje sou.

Passa, se eu me medito;

Se desperto, passou.

 

E quem me sinto e morre

No que me liga a mim

Dorme onde o rio corre —

Esse rio sem fim.

Novo Milênio, Novo Olhar, de Roberto Crema

Mudar o mundo,
É mudar o olhar.
Do olhar que estreita e subtrai,
para o olhar que amplia e engrandece.
Do olhar que julga e condena,
para o olhar que compreende e perdoa.
Do olhar que teme e se esquiva,
para o olhar que confia e atreve.
Do olhar que separa e exclui,
para o olhar que acolhe e religa.
Todos os olhares
num só olhar.
O olhar da inocência
e o olhar da vigilância.
O olhar da justiça
e o olhar da misericórdia.
Todos os olhares
num só Olhar.
Olhar de criança que brinca
na Primavera,
olhar de adulto que labora,
no verão,
olhar de maduro que oferta,
no Outuno,
olhar de prece e silêncio,
no Inverno.
O olhar de quem nasce,
O olhar de quem passa,
O olhar de quem parte.
Olhares da existência no Olhar da Essência.
Todos os olhares,
num só Olhar.
Dançar de roda na órbita do olhar,
dançar de guerreiro em volta da fogueira do olhar,
dançar de Ser no olhar do Amor.
Dançar e brincar de olhar.
Olhar o porvir,
do instante que nasce,
no coração palpitante da transmutação.
Viva o novo olhar!
Olhe a vida de novo!
Novo olhar, novo viver!
Mudar o mundo
É mudar o olhar.
É alto olhar,
Altar do olhar.
É ousar viver.
É viver no ousar.
É amar viver,
É viver para amar.
Só então partir,
Para o Grande Olhar.
Todos os olhares
num só Olhar.
Num mesmo Olhar.
Supremo Olhar
Olhar.